Candomblé em Conversa com o Universo - Pilar Dirickson Garrett

O que é o candomblé? O candomblé, como uma religião afro-descendente e um sistema de conhecimento, abre um mundo paralelo de nosso mundo: o mundo dos orixás, dos deuses e das deusas que protegem, que aconselham, e que abençoam. O candomblé é um jeito de estar em conexão com a natureza, com a paz, com um mundo invisível que nos toca todos os dias. O candomblé, como o Pai Alcides falou, é uma filosofia mais do que apenas ser uma religião. Os orixás estão nas árvores que nos ajudam a respirar, no vento, na água doce que nos alimentam, na música, e claramente nas ondas suaves e turbulentas do mar. Os orixás fazem parte, ou talvez sejam eles mesmos, (d)o ritmo da vida. O candomblé se preocupa com a transferência dessa energia vital da vida, as correntes elétricas que passam entre nós e entre nós e o mundo natural. No candomblé, essa energia vital é chamada axé, e todos os atos da vida devem ser feitos em busca do, ou para apoiar, o axé. Como uma filosofia – uma coleção de pensamentos, rituais, e tradições – o candomblé fornece uma estrutura para viver em harmonia com o universo. 

Mas além disso, o candomblé também é móvel, flexível, e adaptável; não é uma coisa fixa, preso num lugar sem mudanças ao longo do tempo. Por ser um sistema de práticas transmitidas oralmente por pessoas escravizadas e seus descendentes, o candomblé é inerentemente uma coisa viva – uma condição que também permitiu que fosse uma forma de resistência, um espaço em que a resistência poderia acontecer. Dentro do terreiro, por example, um reencontro vital é possível; o próprio terreiro se torna uma zona de contato que permitia (e ainda permite) a reconstituição de famílias que foram destruídas pelos atos violentos da escravidão.

As fotos que eu escolhi demonstram que os símbolos do candomblé fazem parte do tecido da vida na Bahia. O Exu protege as entradas e as saídas, nossas comunicações com voz e com corpo; símbolos dele e dos outros orixás são visíveis em qualquer lugar dentro da cidade (como no portão da casa de Jorge Amado, retratando o arco e flecha de Oxossi) se você olhar com atenção. Os orixás estão dentro da música da Bahia, dentro dos atabaques a seus ritmos. Eles são dentro da comida baiana, na acarajé e no vatapá. Nossa mãe d'água, a poderosa Iemanjá, está encapsulada nas moléculas do mar; protegendo e abençoando os velhos marinheiros de longo curso e os pescadores do beira mar. Nossa mãe d'água vive dentro do espelho do mar; o mar de lembranças que guarda tantas histórias, tantas esperanças, e tanto dor, especialmente para aqueles que são descendentes das pessoas que foram forçadas a atravessar o mar para o "novo mundo."






Comentários

  1. Oi Pilar! Acho que nós tivemos ideias muito parecidas na descrição de como as crenças do Candomblé mostram essa mentalidade que toda coisa natural é sagrada. Você diz que aspetos do Candomblé podem ser achados aqui, em Bahia, mas também podem ser achados pelo Brasil, né? Ideias do ritmos africanos são espalhados na música de qualquer forma no país. Eu não estava prestando atenção para os símbolos na cidade, você tem mais exemplos disso?

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